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Rap, a música de protesto contemporânea.

 Surgido nas periferias urbanas dos EUA, a batida hip hop chegou ao Irã.

Yas, o rapaz que enerva os aiatolás. Foto: http://yasmusic.blogspot.com

Alguns dos gêneros musicais surgidos no ocidente se espalharam pelo mundo, como foi o caso do jazz e do rock. Mas, depois de assistir a uma matéria no Jornal da Globo falando da perseguição sofrida por rappers iranianos, não resta a menor dúvida: o rap é o gênero musical de maior penetração nos tempos modernos, o que está enfurecendo os aiatolás. Um dos principais nomes da cena local, o rapper Yas proclama: “Hoje, vocês me tratam a paulada e chicotada/Amanhã, vão pedir meu autógrafo”, referindo-se à temida Polícia de Costumes, controlada pelo governo. Segundo a reportagem, os barbudos de turbante estão provando de seu próprio veneno, já que, em 1979, os ideais da então nascente revolução islâmica foram disseminados em prosaicas fitas cassete, pois o governo do xá Reza Pahlevi, assim como o deles, controla as rádios e as emissoras de TV.

Hoje, a internet alardeia a música dos rappers locais mundo afora e, também, serviu de porta de entrada para o amigo jornalista e fotógrafo Caio Vilela conhecer melhor o Irã. Depois de fazer contatos através de comunidades no Orkut, Caio publicou, na edição de agosto de 2007 da revista Playboy, uma bela matéria sobre os 30 dias que passou naquele país. Contou que, na vida privada, os jovens fazem suas festas regadas a álcool, as mulheres soltam seus cabelos, enfim, vivem como gente normal. O problema é em público, onde até encontros entre homens e mulheres são proibidos. Seus amigos iranianos contaram que, certa vez, a polícia invadiu uma festinha e os homens foram punidos com 40 chibatadas cada um, verdadeiro arroubo medieval em pleno século XXI.


Rap em escala global

O fenômeno certamente está ligado, num primeiro momento, ao avanço das comunicações via satélite e, nos últimos 10 anos, com a internet. Mas, por outro lado, acho que a simplicidade do rap conquista adeptos de diversas culturas. Não é preciso ser músico para fazer rap (que, significa, na origem, rhythm and poetry). Basta um pedaço de papel e uma caneta para anotar as letras, sempre quilométricas. A batida, sincopada, é por vezes hipnótica como como os mantras indianos, as canções árabes etc. E, mesmo quem não tem uma bateria eletrônica pode se valer do beat box, recurso vocal que imita a bateria, scratches (efeito produzido pelo DJ com discos de vinil) e outros efeitos típicos da música hip hop.

Se nos já longínquos anos 60 o folk era a música de protesto “padrão”, no final dos 70 surgiu o punk e, dos 90 para cá o rap ganhou as periferias do planeta por ser muito mais simples, direto e contundente. E, mesmo porque, é praticamente impossível imaginar, nos dias de hoje, um jovem pobre, seja branco, negro ou de qualquer outra etnia, empunhando um violão ou mesmo uma guitarra para protestar. O mundo mudou e, em alguns aspectos, não foi para melhor.

Hoje, a música folk vive uma certa efervescência nas vozes de garotas brancas de classe média que desafogam seus anseios dedilhando o violão (a trilha de “Juno”, que citei no post anterior, é quase toda nesse naipe). E, também, nos acordes amalucados de artistas como Devendra Banhart e Coco Rosie. Nada contra, mas muito distantes de Bob Dylan e Joan Baez, reverenciados como os paradigmas do gênero.


O rap “original”, hoje

Deixei de acompanhar a cena hip-hop com a atenção de outros tempos, pois tudo soa parecido. Não tenho ouvido nada de diferente, acho tudo igual, pasteurizado mesmo. Você liga a TV e vê os mesmos videoclipes, todos em câmera lenta, com fotografia bem contrastada, carrões com rodas cromadas, popozudas de micro-shorts e sujeitos de braços bombados e tatuados, com cara de poucos amigos e correntes de ouro penduradas pelo corpo. Nos anos 90, ouvia muito Cypress Hill, Planet Hemp, Beastie Boys e até mesmo um pouco de Racionais MC. Antes ainda, Public Enemy, também Beastie Boys, DeLa Soul, Naughty by Nature, entre outros. De uns anos pra cá, só gostei dos cubanos do Orishas (que já não são mais os mesmos), das pesquisas do produtor Madlib (que esteve aqui em 2002) e do Gnarls Barkley. Mas, enfim, o rap segue seu curso por outras terras. E continua deixando gente de cabelos em pé e com as barbas de molho.



Escrito por Alessandro Pinesso às 12h29
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